Pesquisar neste blogue

Mostrar mensagens com a etiqueta Dinis Dias. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Dinis Dias. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 23 de março de 2026

Guiné 61/74 - P27850: Notas de leitura (1907): "Os Descobrimentos Portugueses, Viagens e aventuras", I volume, por Luís de Albuquerque, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, Editorial Caminho, 1991 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 13 de Novembro de 2025:

Queridos amigos,
Não resisti a fazer uma recensão ao volume I do bem-sucedido projeto em que estiveram envolvidos o eminente historiador Luís de Albuquerque e duas escritoras consagradas principalmente na chamada literatura infantojuvenil, mas que também atingem outras camadas jovens. 

Será o caso deste livro aliciante na escrita, bem ilustrado por Emílio Vilar, descreve acontecimento históricos numa linguagem altamente acessível, com boas tábuas cronológicas e ilustrações de navios e instrumentos de navegação, mostrando igualmente os primeiro navios portugueses, as armas e as armaduras que se usaram na conquista de Ceuta, etc. 

É evidente que possuímos boas histórias dos Descobrimentos Portugueses, mas nada se compara com este projeto que aponta para as camadas mais jovens, não foi por acaso que esteve incluído no Plano Nacional de Leitura. Leitura oportuna para os nossos netos, digo-vos eu.

Um abraço do
Mário



O grande talento de saber contar a jovens a saga dos Descobrimentos Portugueses

Mário Beja Santos

Um eminente historiador, o Professor Luís de Albuquerque, duas notabilíssimas escritoras do infantojuvenil, e muito mais, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, um ilustrador altamente qualificado, Emílio Vilar, entraram numa aventura que comportava tremendos riscos de insucesso: fazer uma História dos Descobrimentos Portugueses sugestiva para as camadas mais jovens. Assim surgiu "Os Descobrimentos Portugueses, Viagens e aventuras", I volume, Editorial Caminho, 1991.

“Concebemos uma estrutura simples e incluímos alguns aspetos geralmente omissos como, por exemplo, armas e instrumentos musicais utilizados na conquista de Ceuta, povos que habitavam no Norte de África, peripécias curiosas que por um motivo ou por outro não passaram à História. E pusemos de lado certos mitos que falseiam a verdade. Decidimos ainda escrever para cada período aquilo a que chamamos ‘Uma história possível’. Essas histórias, embora enquadradas nos parâmetros da época, são pura ficção. Destinam-se a permitir ao leitor um contacto mais direto com outras maneiras de viver, sentir, de pensar. Fizemo-las porque entendemos que o relato de conquistas, viagens e aventuras proporciona uma ‘visão exterior’ e as ‘histórias possíveis’ de uma ‘visão interior’ dos Descobrimentos Portugueses.”

O renomado historiador e as duas grandes escritoras ganharam a aposta, é um livro invulgar em termos didático-pedagógicos, assim até apetece aprender. E vamos ao essencial das suas mensagens.

Primeiro, o que era o mundo antes dos Descobrimentos, para se sair do lugar onde se vivia era preciso navegar no mar alto. 

“E o mar era um grande desconhecido. Ninguém lhe sabia os limites. Ninguém lhe sabia os segredos. E quando assim é torna-se fácil inventar. As histórias que circulavam enchiam as pessoas de pavor e de espanto. O desafio começava para além da linha do horizonte, onde se imaginava existir a boca do Inferno, ondas gigantescas de água a ferver, remoinhos borbulhantes, monstros terríveis, sereias e tritões. Todas as estas coisas assustavam a faziam sonhar, de modo que uns se agarravam cada vez mais ao lugar onde viviam enquanto outros ansiavam partir ao encontro de tais maravilhas. Só no século XV começou a grande aventura que permitiu desvendar o mundo. A iniciativa coube aos portugueses.”

Segundo, enquadra-se Portugal nas vésperas da aventura, as supostas razões dadas para conquistar Ceuta, seguem-se desenhos sugestivos com as armas e armaduras no tempo da conquista de Ceuta, as bandeiras e os instrumentos musicais usados na guerra, conta-se como foram as primeiras viagens dos portugueses, como fomos às Canárias, Madeira e Porto Santo, como se processou o povoamento destas duas ilhas, seguiu-se o povoamento dos Açores, entremeiam-se histórias maravilhosas para prender a atenção dos jovens.

Terceiro, como se pensava e como se representava a Terra, em planisférios e livros de geografia e viagens, como foram as primeiras viagens ao longo da costa ocidental africana, como foi fundamental a passagem do Cabo Bojador; como, depois do desastre de Tânger, se avançou para o Sul. 

Em 1441, o Infante D. Henrique mandou armar um navio capitaneado por Antão Gonçalves, ele levava a incumbência de capturar lobos-marinhos, aproveitaram a circunstância para tentar capturar gente. Foi Antão Gonçalves quem fez os primeiros cativos na costa ocidental africana. Prosseguem as viagens, chega-se ao Golfo de Arguim, Lançarote de Lagos capturou 235 homens, mulheres e crianças. No seu regresso, fez-se a partilha em lotes equivalentes, o cronista Zurara dá-nos um relato dilacerante.

Quarto, o quadro das viagens abria as portas ao Novo Mundo, seguem-se as expedições à procura de novas terras e novas gentes, morreu Gonçalo de Sintra, comandava uma nova expedição ao golfo de Arguim, Dinis Dias atingiu o Cabo Verde, Nuno Tristão chegou ao rio Senegal; e tem lugar a primeira viagem pelo interior africano, no rio do Ouro, João Fernandes pôs-se ao caminho, regressou sete meses depois, trazia muitas histórias para contar.

Um veneziano, de nome Cadamosto, contacta o Infante, e partiu rumo ao Sul, visitou a Madeira, as Canárias, o Golfo de Arguim, a zona do Cabo Branco, o Senegal, o reino de Budomel, Cabo Verde continental, o rio de Barbacins, visita o reino de Budomel, irão ser achadas as ilhas de Cabo Verde. E faz-se um balanço dos Descobrimentos henriquinos. 

Enquanto isto se passa há mais conquistas no norte de África. Entra-se numa nova época no reinado de D. Afonso V, faz-se um contrato com Fernão Gomes, ele pode comerciar por aquela costa africana, mas foi comprometido a descobrir pelo menos 100 léguas de costa por ano. Os seus navios descobriram a faixa de terra desde a Serra Leoa até ao Cabo de Santa Catarina, incluindo as ilhas de São Tomé e Príncipe e Fernão do Pó. Edifica-se o Castelo da Mina.

Quinto, é época dos Descobrimentos joaninos, as viagens de Diogo Cão, os contactos com o Reino do Congo, a Viagem de Bartolomeu Dias e a descoberta da passagem para o Índico. Inevitavelmente que se fala do gigante Adamastor e vamos saber um pouco mais quem eram Diogo Cão, Diogo de Azambuja e Bartolomeu Dias, não é esquecida a viagem venturosa de Pêro da Covilhã.

Neste tempo já há outros intervenientes à procura de comércio e riqueza pelo mar fora. Cristóvão Colombo, ao serviço dos Reis Católicos, atingiu em 1492 as ilhas da América Central e convenceu-se de que chegara à Índia. Surgiram delicados problemas político-diplomáticos entre D. João II e os Reis Católicos. O desfecho para resolver todas as tensões foi o Tratado de Tordesilhas, em 1494, Portugal e Espanha dividiram o mundo ao meio, ficando metade para cada um. 

No século XV, os monarcas ibéricos sentiam-se no direito de proceder assim e não reconheciam a nenhum outro país a autoridade para lhes disputar o Novo Mundo: todas as terras descobertas a oriente pertenceriam a Portugal, e as terras descobertas ao ocidente pertenceriam a Castela. 

“No Tratado ficou escrito também que astrólogos e pilotos se deviam deslocar à zona de demarcação, viajando os espanhóis em navios portugueses e os portugueses em navios espanhóis. Se por acaso lá houvesse alguma ilha ou ‘ponta de terra firme’, construía-se uma torre ou muralha que marcasse o limite de forma bem visível. Incluiu-se também uma cláusula autorizando os navios espanhóis a circularem pelo mar português para se dirigirem À zona que lhes coubera.”

Finda este belíssimo livro que pertenceu ao Plano Nacional de Leitura referenciando navios e instrumentos de navegação e fazendo-se um balanço dos Descobrimentos joaninos e temos ainda uma cronologia que vai do reinado de D. Dinis ao reinado de D. João II. O II volume deste belo empreendimento foi também publicado na Editorial Caminho em 1996, inevitavelmente começa com a viagem de Vasco da Gama.

Doutor Luís Albuquerque
Isabel Alçada
Ana Maria Magalhães
O Castelo da Mina
Os primeiros contactos
_____________

Nota do editor

Último post da série de 20 de março de 2026 > Guiné 61/74 - P27840: Notas de leitura (1906): "Portugal em África depois de 1851 (Subsídios para a História)", pelo Marquês do Lavradio; edição da Agência Geral das Colónias, 1936 (7) (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 29 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27268: Notas de leitura (1843): "Vestígios Portugueses no Senegal", edição da Embaixada de Portugal em Dacar, 2008 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 5 de Novembro de 2024:

Queridos amigos,
Certamente que não passa de mera curiosidade, havendo, no entanto, de reconhecer que todas estas referências alusivas a património português se devem a presença multissecular, a ilha de Gorée foi paradoxalmente ponto de venda de escravos e lugar de retempero para navegadores; estudiosos portugueses como Teixeira da Silva Mota, Carreira, Silva Horta, Costa Dias, entre outros, estudaram a presença luso-africana neste ponto da então Senegâmbia, onde podemos incluir judeus e cristãos novos até ao início do século XVII; um historiador francês que aqui já se fez referência, Jean Boulègue também estudou esta expressão da luso-africanidade, que podemos situar entre o fim do século XVI até ao século XVII, autores de viagens como André Álvares de Almada e Francisco Lemos Coelho deram nota dessa presença; o padre jesuíta Baltasar Barreira pregou em Joal e Portudal, no século XVIII eram já só uma memória e os últimos luso-africanos na Senegâmbia viviam no século XIX em Joal. É uma curiosidade mas faz parte do nosso itinerário pelas partidas do mundo.

Um abraço do
Mário



Vestígios Portugueses no Senegal

Mário Beja Santos

Trata-se de uma edição da Embaixada de Portugal em Dacar, 2008, e merece atenção o texto com que o embaixador António Montenegro apresenta a obra:
“Olhando uma panorâmica aérea de Gorée, por exemplo, a primeira imagem desta obra, como o navegador Dinis Dias em 1444 não viu certamente, parece-nos ver uma miniatura de África, com o grande e côncavo golfo da Guiné retido na pequena enseada da ilha, onde muitos navegadores, portugueses, holandeses, ingleses, franceses, sossegaram dos perigos do mar e gozaram os prazeres da tranquilidade.
Quando os navegadores portugueses encontraram esta pequena ilha, a que chamaram ilha da Palma, estavam sôfregos do Oriente, onde queriam chegar depressa. Mas só chegaram ao Oriente mais de cinquenta anos depois, em 1498, com Vasco da Gama. Gorée, então ainda Palma, ficou sempre, nos dois séculos de presença portuguesa, como lugar de repouso, de encanto, de aguada para naus e navegadores recuperarem forças.
Poderá assim dizer-se que os portugueses anteciparam Gorée e a ‘petite côte’ mais a Sul, como lugar de turismo. Mal imaginavam os portugueses que, continuando pela costa de África, avistando e dobrando o Cabo da Boa Esperança, no extremo Sul, subindo a costa Leste, iam encontrar uma outra pequena ilha, a ilha de Moçambique, simétrica de Gorée. Ilha de Gorée e Ilha de Moçambique, ambas Património da Humanidade.
Na sua passagem pela Costa Ocidental de África que hoje é o Senegal, os portugueses deixaram marcas na designação geográfica (Pikine, Roufisque, Portudal, Cap Vert, Almadies, Casamanse, Ziguinchor, etc.), mas deixaram sobretudo uma serena imagem de gente do lado de cima do mar, se sente bem em toda a parte do mundo no meio de toda a gente.
Foram os cartógrafos portugueses quem desenhou os primeiros mapas do território que hoje constitui o Senegal.”


Selecionámos um conjunto de imagens que se prendem com a ilha de Gorée, de construções onde é patente a arquitetura portuguesa; a publicação inclui um conjunto de artigos alusivos à história da Igreja Católica no Senegal, aos luso africanos da Senegâmbia, e também um interessantíssimo artigo de António Carreira referente a aspetos da influência da cultura portuguesa na área compreendida entre o rio Senegal e o Norte de Serra Leoa. Penso que tem muito interesse referir algumas dessas designações: Pikini, de pequenino ou pequeno; Pintade, pintada, ou seja, a galinha do mato ou galinha da Índia; Portonké, é vocábulo composto de porto, abreviatura de Portugal mais o sufixo de origem ou procedência, da língua Mandiga, Nké, homem: homem do porto, ou seja, homem de Portugal; Portugalais, designação dada ao mestiço de origem ou de língua portuguesa; Almadie, do árabe al-madia: difundido pelos portugueses. Usado com o significado de canoa ou piroga; Argamasse, de argamassa, usado para significar barro amassado; Cebessaire, de cabeceira. Usado com o significado de: o que vai (ou está) à frente (o guia); Cheval marim, de cavalo-marinho ou hipopótamo; Cobra, de cobra; Conta de terra: colares que servem de adorno; Coutumes, de costumes. Utilizado com mais frequência para definir direitos de tráfego, impostos, tributos que, outrora, os régulos exigiam para consentir na passagem ou no estacionamento de negociantes europeus ou mestiços nos seus territórios.

Outro aspeto muito curioso da publicação é a indicação de nomes de origem portuguesa de famílias senegalesas que se encontraram na lista telefónica de Dacar, são exemplos: Alcântara, Alexandre, Gomis, Monteiro.


Ilha de Gorée
Mapa manuscrito de Casamansa, cerca de 1800.
Pela convenção de 12 de maio de 1886 entre Portugal e a França, Casamansa passou para a administração francesa
Comissariado de polícia, construído no local onde existiu a primeira capela e cemitério portugueses em Gorée
Casas de traça portuguesa, São Luís (antiga capital)
Saly Portudal, construção sobre fortim português
Casa da traça portuguesa, Ziguinchor, Casamansa
_____________

Nota do editor

Último post da série de 27 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27259: Notas de leitura (1842): "Os Có Boys (Nos Trilhos da Memória)", de Luís da Cruz Ferreira, ex-1º cabo aux enf, 2ª C/BART 6521/72 (Có,1972/74) - Parte I: Apresentação sumária (Luís Graça)

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Guiné 61/74 - P20170: Notas de leitura (1220): “Antologia de textos lusófonos sobre o Senegal”, seleção de textos de António Montenegro, José Horta e Mallé Kassé, sem indicação de editor; Dakar, 2015 (Mário Beja Santos)



1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá e Bambadinca, 1968/70), com data de 24 de Janeiro de 2017:

Queridos amigos,
Esta publicação que tem tanto de maravilhoso e de singular foi-me gentilmente oferecida pelo professor José Silva Horta, historiador da Guiné. Quem elaborou a antologia primou pelo desvelo, pelo rigor histórico e ficamos assim com um documento que permite discernir as mentalidades e os conhecimentos de quem chegou àquela Guiné em primeiro lugar. Onde faltava cartografia a imaginação era luxuriante: tínhamos chegado à Etiópia Menor, o rio Nilo andaria por ali perto, e coisas assim. Trata-se de um documentário com pormenores relevantes sobre os povos, os sistemas de poder, os credos religiosos, os alimentos, as aves, os animais de caça. Ali começava a Guiné, no rio Senegal e a Senegâmbia ou os rios da Guiné de Cabo Verde estendiam-se até à Serra Leoa. E assim foi durante séculos, com tal incerteza que precisámos do século XIX para saber o que era a Guiné Portuguesa, deitando por terra todos os outros topónimos.

Um abraço do
Mário


O Senegal, a Guiné em textos lusófonos

Mário Beja Santos

A obra intitula-se “Antologia de textos lusófonos sobre o Senegal”, é bilingue, seleção de textos de António Montenegro, José Horta e Mallé Kassé, sem indicação de editor, Dakar, 2015. Na apresentação, António Montenegro diz explicitamente que “Os portugueses foram quem primeiro cartografou o território do Senegal e primeiro escreveu sobre as suas populações. Os cronistas portugueses do século XV, que escreveram sobre as navegações ao longo da costa Ocidental de África, e os cartógrafos que pormenorizaram o recorte do continente africano, mencionaram longa e detalhadamente, o que é hoje o Senegal. Deram à península onde se situa Dakar o nome que ainda hoje conserva, o Cabo Verde e, dentro deste, o Cap Manuel, do rei D. Manuel I, e a Pointe des Almadies, de um tipo de barco português”.

Os organizadores maravilham-nos com o acervo dos autores antologizados, logo com Honório Barreto, a que se seguirá um vasto reportório de autores como Fernanda de Castro, Benjamim Pinto Bull, Nize Isabel de Morais, António Pinto da França, Gilberto Gil, Gonçalo Cadilhe, José Luís Peixoto, Ondjaki e Léopoldo Sédar Senghor. A antologia abre com o capítulo XXXI da “Crónica do descobrimento e conquista da Guiné”, e que tem a designação “Como Dinis Dias foi à terra dos negros e dos cativos que trouxe".

Este Dinis Dias pediu ao Infante D. Henrique para armar caravela, “porque era homem desejoso de ver coisas novas”. O Infante agradeceu-lhe, Dinis Dias armou uma caravela, “passou a terra dos Mouros e chegou à terra dos negros que são chamados Guinéus. E ainda que nós já nomeássemos algumas vezes em esta história por Guiné a outra terá em que os primeiros foram, escrevendo-lho assim em comum, mas não porque a terra seja toda uma; pois grande diferença têm umas terras das outras, e muito afastadas estão”. Filharam quatro nativos, “os quais foram os primeiros negros que em sua própria terra foram filhados por cristãos”. Dinis Dias prosseguiu viagem até que chegou a um grande cabo, ao qual puseram o nome Cabo Verde. “E dali fizeram volta para este reino, e conquanto presa não fosse tamanha como as outras que antes vieram, o infante a teve por mui grande, por ser daquela terra. E assim fez por isso a Dinis Dias e a seus companheiros grandes mercês”.

Convém contextualizar o espaço e o tempo destas viagens: a cartografia era então elementar, desconhecia por inteiro o recorte desta África Ocidental, razão pela qual surgiram efabulações à volta da Etiópia, do rio Nilo, na natureza dos povos justapostos entre berberes, mauritanos que habitavam até às proximidades do rio Senegal e os negros, por vezes islamizados, e os outros, puramente animistas, todos eles com sistemas de poder bem diferentes. Só assim se pode entender a leitura de Esmeraldo de Situ Orbis de Duarte Pacheco Pereira, que fala do rio Senegal, que ali era o princípio dos etíopes e homens negros, que havia li duas Etiópias, a inferior, que corre e se estende pela costa do rio Senegal até ao cabo da Boa Esperança, e que a este rio também se chama Guiné. A outra Etiópia, superior, começa no rio Indo, além do grande reino da Pérsia…

No canto V de Os Lusíadas, Camões também aborda a novidade destas terras descobertas, revela o nível de conhecimentos disponíveis na época:

“Deixámos de Massília a estéril costa,
Onde seu gado os Azenegues pastam,
Gente que as frescas águas nunca gosta,
Nem as ervas do campo bem lhe abastam;
A terra a nenhum fruto, enfim, disposta,
Onde as aves no vento o ferro gastam,
Padecendo de tudo inópia,
Que aparta a Barbaria da Etiópia.”

“Passámos o limite a onde chega
O Sol, que pera o Norte os carros guia;
Onde jazem os povos a quem nega
O filho de Climene a cor do dia.
Aqui gentes estranhas lava e rega
Do Negro Sanagá a corrente fria,
Onde o Cabo Arsinário o nome perde,
Chamando-se dos nossos Cabo Verde.”

“Por aqui, rodeando a larga parte
De África, que ficava ao Oriente,
A província Jalofo, que reparte
Por diversas nações a negra gente;
A mui grande mandinga, por cuja arte
Logramos o metal rico e luzente,
Que do curvo Gambeia as águas bebe,
As quais o largo Atlântico recebe.”

Importante testemunho é o do missionário Baltazar Barreira (1538-1612), que visitou a Guiné e a Serra Leoa. Na sua carta ao padre João Álvares ele refere que o rio Senegal é o princípio da Guiné, dizendo mais ou menos isto: “Esta parte de África que os portugueses propriamente chamam Guiné começa no rio Cenaga (fórmula com que ao tempo se falava do rio Senegal), e corre pela costa até à Serra Leoa, obra de 180 léguas de Norte a Sul, é tão caudaloso este rio Cenega que sobem por ele os navios 150 léguas”. Fala dos Fulos que habitam este rio, seus usos e costumes e refere depois os Jalofos que habitam a parte Sul do rio Senegal. Mais adiante, dá-se a palavra a André Álvares de Almada, logo no primeiro capítulo do seu incontornável Tratado Breve dos Rios da Guiné do Cabo Verde fala dos negros Jalofos, dos seus costumes e trajes, são páginas extraordinárias tal como o capítulo VIII, dedicado ao reino do Casamansa.

Esta antologia é uma obra de devoção e de rigor científico, aqui podemos perceber a nebulosidade do conceito territorial da Guiné, como a sua fronteira imaginária começava no Senegal, os textos registados, primorosamente selecionados a partir de Zurara e consagrando nomes como André Donelha, Francisco Lemos Coelho e até Honório Pereira Barreto, devia ser acessível ao leitor português, nesta área da África Ocidental escrevemos páginas brilhantes de uma literatura que permanece praticamente ignorada, é um dano cultural reparável e necessário para portugueses e guineenses, está aqui a nossa proximidade, o nosso abraço lusófono, também.
____________

Nota do editor

Último poste da série de 20 de setembro de 2019 > Guiné 61/74 - P20161: Notas de leitura (1219): Missão cumprida… e a que vamos cumprindo, história do BCAV 490 em verso, por Santos Andrade (24) (Mário Beja Santos)